sexta-feira




Os pardais não voam, assim encasacados. Hei, puto! Não ouves? Larga esse sobretudo, ainda tens bons ossos para aguentar a humidade espessa do norte. De guarda-chuva na mão e vais assim, assim cabisbaixo, assim como se foras um velho, assim arrastado, assim-assim? Que se passa com os miúdos de hoje, que parece que levam o peso do mundo às costas...? De guarda-chuva na mão e não o abres? Nunca ouviste falar de miss Poppins, de fitas de nastro e de cetim em tons pastel, de canções de inocente rebelião contra os ditadores que te protegem entre muros de casas aquecidas e te dão ao menos três refeições quentinhas por dia e um catálogo de repressões para passeares pelo teu mundo adulto?


De que me falas tu? Não te entendo. Que protecção é essa que nasce das tiranias? Os meus pais ficaram para trás, não os vejo nesta fila que anda em centopeia, portanto ficaram para trás, há já uns meses que ficaram para trás neste caminho que palmilho há mais anos do que sou. Não quero pensar que não ficaram para trás. Se assim o fizer, que me resta senão aceitar que foram para a frente e se foram para a frente como os reencontrarei? E se foram para a frente? Se foram para a frente tanto mais me pesa este sobretudo, mais se me fecha este guarda-chuva; este enorme guarda-chuva, ainda ontem era da minha altura. Rivalizam entre si, as botas e o sobretudo, na aliança desnatural com a gravidade. Puxam para baixo e puxam e puxam, e no entanto quando me estenderam o sobretudo ele flutuava como as penas das galinhas que fugiam espavoridas das minhas corridas, essas corridas tão gargalhadas que até pareciam corridas de criança. Enganaram-me, com este sobretudo. Já as botas... Escolhi este gorro porque era fofo, era o mais fofo da vala comum de chapéus cobertos de fuligem que passaram à nossa frente antes da viagem. Era fofo. Havia de puxar-me para cima, para cima, para as nuvens, hop! Mas as botas, o sobretudo... o gorro fofo é fofo, mas nada mais. É fofo e fraco e desistiu de voar à primeira luta perdida contra o sobretudo. Depois vieram as botas, aqueceram-me os pés carregados de neve e morreu-se-me a esperança de voar. Sou um velho. Já me lembro mal, mas se bem me lembro, não era velho quando nasci.

Foi ontem que cheguei a Austerlitz sem entender ainda por completo de onde vinha. Cheguei a Austerlitz vindo do nada, e no entanto nada me parecia Austerlitz. Os meus pais seguiram em frente, e eu nunca consegui alcançá-los, nunca o quis, ainda não o quis, ainda não. Conheço bem os trilhos da terra. Balancei-me em caminhos de mar. Mas os do céu... Bem tentei, mas as botas não me deixaram e perdi o guarda-chuva. É por isso que te berro, que me apetece quase bater-te, a ti, assim velho e arrastado em preto e branco. Olha à volta, e verás o tudo que te cerca. Verás como te constrói e alicerça esse peso de injustiça que te verga. Verás como tamanho veneno te vacina. Que nervos, esta criança, este ancião, este espectro da sobrevivência!... Hei, puto? Nunca ouviste falar de guardas-chuva voadores?

5 opiniões:

LuisElMau disse...

Manel, eu sabia que tinhas que vir brincar aqui com todos, que texto maravilhoso, escreves com uma beleza estonteante.
Adorei a tua contextualização.
Obrigado.

Manel disse...

Tu estragas-me com mimos, rapaz... E eu é que agradeço o convite. :)

LuisElMau disse...

deixa lá isso de estragar que eu não quero estragar nada, é mesmo sincero, de verdade que gosto da forma como brincas com as palavras, o tom com que as pintas. é sonora a tua escrita.
Já fui desafiar o teu amigo também, muito bons os textos dele, já lá tinha estado há uns tempos a ler o texto do ferro de engomar.

Manel disse...

:) Boa. O K. é uma formiga-poeta... pode ser um parceiro interessante para o jogo.

tonsdeazul disse...

Gostei muito destas palavras. Têm vida e deram um sentido engraçado à imagem.