As histórias que contam acerca de um sentimento existente entre personagens de um enredo, iniciado no passado e no passado terminado, têm apenas um fim possível, o que já aconteceu.
Por outro lado, as iniciadas no passado e no futuro terminadas, um qualquer fim podem ter. O melhor se possível, o melhor de nós no mínimo, se possível nunca um mau, nenhum desleal.
As histórias que narram esse mesmo sentimento entre personagens do futuro, tendem a terminar ou com uma metáfora sobre um fim passado do autor, ou com uma projecção de um sonho do autor, ou com um fim insípido.
Porque o futuro é, é e sempre será a parte do tempo mais individual, o passado e o presente sempre o partilhamos com alguém, o futuro pode ser apenas nosso e é nele que devemos nos projectar, sempre.
O futuro a Deus pertence, logo pertence-me.
Quando o futuro for presente, se Deus quiser, será então partilhado com quem nele existir.
quarta-feira
terça-feira
segunda-feira
Penso primeiro, penso uma vez e questiono, duvido, não acredito na conclusão.
Penso mais, penso duas vezes, concluo outra coisa, duvido.
Penso mais, penso três vezes, desempato, fico com a aparente certeza.
Ajo por impulso, nunca levo em conta o meu pensamento.
Normalmente quando faço o que penso, racionalmente arrependo-me mais tarde.
E depois tem outra coisa, devemos ter algum cuidado com as nossas afirmações de certeza.
À uns meses atrás escrevi um posto chamado: Um Dia Descemos Juntos.
Errado, não descemos juntos, subimos juntos o quebra-costas.
Fui tomar o pequeno-almoço e almoçar e lanchar em Coimbra neste domingo. Agi por impulso. Primeiro tinha pensado em ir, vou fazer uma pequena loucura. Depois tinha pensado em não ir, vou gastar imenso dinheiro e na verdade uma semana depois… Depois pensei em ir, não posso faltar, mais uma vez, à minha palavra. Depois no último minuto senti e ainda consegui pensar… estou mesmo bêbado, não consigo ir.
Mas vou assim mesmo.
E fui.
Foi bom.
Como é bom responder aos impulsos, cometer loucuras, estar com as pessoas, dormir nos comboios, viver momentos fora da rotina, ter memórias boas e longínquas que se cruzam com novos momentos bons, e partilhar isso tudo com quem está ao nosso lado.
Obrigado Ana pelo domingo, foi a melhor ressaca da minha vida, se todas fossem assim, então é que não tentava diminuir no álcool.
Parece impossível!
Oh! Diabo
Este sol…
Afinal as cadeiras fazem tanto barulho.
E ainda deu tempo de comprar uma prenda para a mãe e jantar com ela, antes de começar a tentar dormir em oito horas, as nenhumas que dormi durante o fim-de-semana.
quinta-feira
Estou num autocarro é de noite, o tempo está de chuva, não muita. Os vidros do autocarro estão pingados, a rua está mal iluminada, o ambiente aqui dentro está húmido e fechado, ninguém abre nenhuma janela devido ao frio que deve fazer lá fora.
Não me lembro de ter entrado neste transporte, não sei se entrei sozinho ou acompanhado, viajo num lugar sentado individual, do lado esquerdo do autocarro, virado de frente e o condutor, que reparo agora ser condutora, vai três lugares à minha frente.
Os faróis do veículo, apesar de acesos, do lugar onde me encontro, praticamente não iluminam o caminho por onde seguimos.
Tenho a impressão de já ter passado nesta rua, é o que sinto ao olhar para o meu lado esquerdo, por entre os pingos de água que escorrem pelo vidro, na horizontal, devido ao vento e à velocidade a que a máquina se desloca no espaço, que neste momento não é muita. Há pouco, ou aqui ou em outra rua idêntica a esta, tive uma sensação estranha, de que estava num lugar ao qual não pertencia e que nem de resto aqui deveria estar, que era estrangeiro. Agora, depois do déjà vu, a impressão foi ainda mais estranha; não posso afirmar com certeza, porque não consegui realmente observar todas as poucas pessoas que passavam na rua, mas fiquei com a certeza de que todos os vultos que consegui vislumbrar eram femininos.
À minha frente, de costas para mim, viaja uma senhora, do pouco que consigo observar dela, diria tratar-se de uma mulher entre os quarenta e cinco e os cinquenta e cinco anos de idade, que trabalha até tarde e desse trabalho regressa. Não sei que horas são, mas parece ser tarde, parece ir já longa a noite, a lua está já mais perto de voltar a partir do que do momento em que regressou. Na frente desta senhora e ainda de costas para mim ou de frente para o caminho, depende do ponto de vista, viaja uma rapariga que não desvia o olhar da rua à nossa esquerda, apesar de não observar nada do que lá fora acontece, aos meus olhos, e nem mesmo observar o reflexo do que se passa cá dentro. Caso fosse o reflexo que ela observasse, teria cruzado o seu olhar com o meu, não aconteceu. Olha na direcção da rua e olha agora, mas o seu olhar não está na rua, nem aqui nem agora. Observa outro lugar noutra altura ou então não quer observar a mulher que viaja à sua frente, essa sim de frente para ela, de frente para a senhora que regressa do trabalho à minha frente e de frente para mim, ou de costas para o rumo do caminho.
Detenho-me a tentar observar esta mulher sem ser interceptado por ninguém, principalmente por ela, durante esta minha contenda.
Parece-me logo uma mulher a evitar, logo à primeira vista. Vou tentar expor a minha ideia sobre o porquê da minha estranheza ou medo.
É uma mulher que viaja entre os trinta e os quarenta anos de idade, e sim, os números são importantes para mim assim como o tempo. Está vestida com uma gabardina preta e saltos altos da mesma cor, não consigo perceber o que tem vestido por debaixo da gabardina, tem um lenço vermelho à volta do pescoço, uma coleira de seda vermelha que dá um nó sobre si mesma apertando o suporte físico da cabeça e deixando cair de um dos lados uma longa ponta que promete esvoaçar ao vento, quando ele aparecer ou quando o movimento o proporcionar. Tem cabelos pretos, lisos e longos, oleados ou já húmidos ou molhados da chuva que continua, por vezes menos tímida, a cair lá fora e de onde suponho que ela tenha vindo.
Durante o período de tempo que demoro a chegar a estas descrições, nada a mencionar acontece. No entanto, sem esperar, sonhar, supor ou imaginar, uma voz surge à minha consciência vinda por detrás de mim:
- Tenta passar despercebido, não digas nada, tenta não olhar para lado nenhum e faz tudo o que estiver ao teu alcance para te mentalizares que não estás aqui. Como já deves ter sentido, não deverias aqui estar e não pertences a este lugar. Essa tua atitude observadora é perigosa e neste lugar só te pode trazer males maiores que aqueles que já carregas contigo. Se queres ouvir um conselho, assim que a porta deste autocarro abrir, sai, não tomes nenhuma outra iniciativa que não seja essa, esperar que a porta abra e sair, normalmente.
E voltou o silêncio, comecei um leve movimento para me virar de costas, pelo meu lado esquerdo para com esse movimento tentar vislumbrar pelo reflexo do vidro quem estaria por trás de mim, antes do contacto directo.
- Não sejas tonto, nem sabes o que arriscas ao arriscar. Acredita por uma vez na tua vida, acredita na dúvida sem com isso te sentires obrigado a procurar a certeza. Se olhares para trás vais ter a certeza que não queres e com a qual não vais conseguir lidar. Fica quieto, se conseguires não respirar ainda melhor. A porta vai abrir, não falta muito tempo e já muito conseguiste estar aqui.
Fiquei parado, gelado, quedo imóvel, frigido estupefacto, e foi impossível seguir o conselho que acabara de ouvir, não consegui disfarçar a minha fragilidade, insegurança, inquietação de incerteza. O medo atrai o perigo.
A voz do conselho era uma voz feminina, jovial. Transmitia calma clareza e força mas parecia infantil ao mesmo tempo. Não seria uma criança a falar, a dicção era correcta e o conteúdo profundo demais na medição das minhas hierarquias. Quem seria? A dúvida tinha chegado acompanhada da sua irmã gémea, mais nova, a curiosidade.
Continuei petrificado neste autocarro, não sei se olhei para trás ou para a frente, não sei se observei a mulher que de costas viajava ou se tentei observar a mulher miúda que atrás de mim viajava.
Sei, que sem reparar em movimento algum, a mulher que viaja entre os quarenta e cinco e os cinquenta e cinco anos de idade está parada, de pé, à minha direita, à minha frente. Agora é impossível sair deste transporte, mesmo que a porta seja aberta. Olha directamente para mim, questiona, o que faço eu aqui? Sinto-me uma presa.
Não tenho outra alternativa se não olhar para ela, de que vale agora tentar passar despercebido, o conselho que tinha ouvido já não pode ser seguido, fui descoberto. É inegável, estou aqui. Olho nos olhos dela, e ela sorri com o olhar, vejo sarcasmo, sinto o abismo.
Olho na direcção dos olhos desta mulher, mas não vejo alma alguma, não por ela desviar o olhar, mas porque existe um filtro entre nós, o filtro do desconhecido, do perigo. Sinto-a como se sente um predador. Tenho que a enfrentar se quiser escapar, de nada vale fugir. Agora é entre mim e ela, o desafio está lançado, a festa vai começar.
O autocarro que viajava numa penumbra misteriosa, onde nem os faróis iluminavam o caminho, agora está completamente iluminado, existem vários olhares a agir na minha direcção e por fim tenho consciência do que já sentia, neste autocarro só viajam mulheres e na rua por onde viajamos sem fim, apenas mulheres circulam.
Com o olhar questiono a mulher da gabardina preta, agora é a minha vez de agir, sem palavras, apenas com o movimento e a linguagem corporal, pergunto-lhe o que ela deseja de mim.
A gabardina é aberta e cai no chão, por baixo dela existe apenas um par de cuecas de renda, pretas quando não transparentes. São rasgadas por ela e no chão vão cair também. O tempo para, está à minha frente uma mulher de corpo esbelto, branco, redondo. Calça uns sapatos de salto alto, pretos e tem o lenço de seda vermelho ao pescoço. E foi neste sequência de observações de cheguei aos olhos dela novamente, comecei de baixo e cheguei lá a cima.
Salta para o meu colo, num movimento rápido, coreografado. Abre o meu casaco e a minha camisa, desenlaça o meu cinto e quando se prepara para abrir as minhas calças eu tento reagir, então grita.
- Estou aqui para te foder.
A expressão assusta-me, o medo que atraiu o perigo é transformado em pavor misturado com revolta e desejo de poder, virilidade. Estou sentado com uma mulher nua em cima de mim que tenta encontrar a fonte do meu prazer. O meu tesão dá-me força para agir e tentar reverter a situação. Levando-me do banco segurando a mulher nos meus braços pelas ancas, encosto-a a um varão do autocarro, o transporte começa a travar e vejo uma paragem que se aproxima, antes de a largar no chão beijo-a e com os dentes tiro-lhe o lenço de seda. É quando a porta abre e saio para a rua a correr, ainda olho para trás, as portas fecham-se e ninguém saiu atrás de mim. Com a partida do autocarro, parte também a luz que iluminava o lugar.
Estou parado no escuro, numa rua em linha recta, a mesma de onde me parece nunca ter saído enquanto viajava no autocarro. Vejo um entroncamento ao fundo, com uma rua à direita que chega a esta. É para lá que me desloco. Neste lado da rua não existem candeeiros e por entre descampados existem três casas de dois pisos, até ao entroncamento. Quando olho para os descampados para tentar ver a linha do horizonte, nada consigo ver que não seja escuridão e negro. Continuo a caminhar até atingir o entroncamento, o outro lado da rua está iluminado e todos os lotes estão ocupados, na sua maioria com comércio ao nível da rua e habitação no piso superior, apenas existem mulheres na rua. Neste lado da rua não existe ninguém.
Na esquina, existe uma grande árvore. É por baixo desta árvore que me sinto finalmente seguro e consigo respirar fundo, encosto-me ao tronco, agacho-me e consigo finalmente observar o que me rodeia, sem ser com a velocidade estonteante do receio ou através do canto do olho do despercebido. É aqui que fico com a certeza de só existirem mulheres neste rua, é aqui que vejo o autocarro aparecer ao fundo da rua, do meu lado esquerdo, para desaparecer no outro fundo, o direito.
Finalmente levanto-me e opto por seguir por esta nova rua, não sei onde estou, não sei como cheguei aqui, mas já percebi que não estou no meu lugar e que não deveria sequer aqui estar, por isso decido seguir por esta nova rua, procurar outro caminho.
segunda-feira
(Paul Valéry)
____________________________________________________________________
O Meu Espaço é Sagrado!!
Eu Sou Deus.
____________________________________________
Ele: Eu Sou Deus!
Ela: mas Eu não acredito em Deus
Ele: Por isso é que não acreditas em mim.
sexta-feira
terça-feira
"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!"
(Fernando Pessoa)
sábado
acho que andamos quase todos a sentir coisas parecidas, uns numa altura, outros noutra, uns com mais consciência que outros, mas na verdade todos sentimos coisas parecidas com os acontecimentos das nossas vidas.
não somos assim tão diferentes uns dos outros, nem tão individuais ou individuos unicos, acho mesmo que só nos tornamos unicos na forma como nos partilhamos e somos abraçados.
quarta-feira
domingo
O relógio marca 9:51. everything in it’s right place.
Ninguém no patamar da estação, eu subo.
Vai ser difícil me apaixonar numa discoteca, apesar de sentir estar como peixe dentro d’água, dentro dela. Mas se ela me olha, quando a olho; só a consigo olhar se não desejar. Estou já tão desesperadamente louco, tenho vergonha do desejo.
We can be heroes, just for one day. We can be us.
Não sei a que horas, ou melhor escrevendo, quando; é que o comboio vai aparecer. Já devia ter ido a andar até ao fim do patamar, vazio. E saltar.
Já é mais do que tempo de largar este patamar vazio onde me encontro, e eu não gosto de esperar.
Parei de escrever, olhei ao meu redor. A música acabou, uma mota passou, a musica começou, Calexico. Não vou saltar, estou bem sentado, descansado. Diverti-me imenso hoje, conheci-me um pouco melhor, principalmente aceitei-me, e abri uma brecha no muro que me contem, abri-me a viver a vida, procurá-la. O que me parece bom, melhor.
Mesmo sabendo que sou um burguês e que não me apetece estar sentado na estação de comboios de Algés, bêbado, maluco, à espera de um comboio que me leve daqui. Quando por mim já nem sequer sei onde ou mesmo quando quero estar. Fico resignado.
Resta-me estar aqui, quando alguém passa nas minhas costas e segue e o patamar deixou de estar vazio. Continuo a não conceder à minha presença a capacidade de encher um pouco o vazio da realidade.
A música acabou, vou respirar.
Relembra o impossível de lembrar, porque nem sequer aconteceu.
Carrega o leve peso, que de leve nada tem, no facto de teres vivido o que nunca sequer apavoraste.
Se antes tivesses tido medo, medo verdadeiro, ao ponto de fugir. Mas não. Pensaste que eras forte para tudo, pensaste que até o desamor tu vencerias, a indiferença, o orgulho, a mais pérfida ilusão.
Se os horários dos caminhos de ferro de Portugal funcionarem, ainda faltam 9minutos, contados pelo meu telemóvel, para o comboio, que me vem levar daqui, que me vai fazer nascer noutra realidade qualquer, qual mulher, qual mãe, qual vagina; chegar.
No patamar são ainda 9:51, de um momento parado no tempo.
A porta vai abrir e desta vez, em vez de sair para uma outra realidade, vou entrar para essa outra verdade qualquer. Renascer, quase viver, viver novamente, depois de algum tempo morto ou mesmo estúpido.
Like a pain in the river. Caímos ao Tejo, ajoelhamo-nos de fronte dele, caímos na rua, tropeçamos na vida, caminhamos aqui, temos esperanças, somos seres humanos.
E a rapariga na pista era linda sim, e só não dançaste mais com ela porque tens vergonha do teu desejo, e desconfias sempre do desejo do outro.
És um merdas, não vales as palavras que escreves, porque nunca vives com a paixão com que as escreves.
Nem odiar consegues.
Mata-te, no silêncio.
A última vez que chorei nos braços de alguém, tinha um espelho à minha frente, e os meus braços estavam vazios. Hoje tenho outro reflexo de mim, defronte dos meus olhos, mas os braços estão cheios.
E o comboio que não chega, e a rapariga preta que já olha, e eu que já pensava noutra rapariga, que de preto pintou o meu passado.
Mas afinal o quê é que eu quero com isto? E estavam 13º às 9:51.
E eu acabei de me sentar no interior do comboio.
Quatro homens no fundo da carruagem, do lado direito.
O comboio espera a musica parar, para arrancar.
Uma rapariga dorme dois bancos por trás de mim, para a ver tenho que olhar para trás, ou posso tentar olhar por um reflexo do vidro e assim observar uma projecção da realidade.
Vou ouvir a nova musica e viajar no comboio, um pouco.
Grande noite, até no bar à espera das cervejas que nem sequer tive que verbalmente pedir, dancei, vivi a musica e sim, fui maior do que o som, fui eu.
E pronto, afinal é possível ir ao bairro alto, encontrar amigos e divertir-me com eles, sinto-me livre. E o fiscal aparece, roda a chave e com esse movimento ordena o fechar das portas, os homens saíram todos em Oeiras e o meu passe social prova que sou livre de viajar neste comboio.
E que bom seria se o céu ficasse azul e o sol nascesse, aqui.
Já o sinto, deixei de o pressentir, já o vejo quase.
Até quando me vou contentar apenas com o sonho? Ao ponto de nem sequer desejar a realidade? Se apenas o sonho me contenta, como desejar a realidade?
Desejo a utopia, a verdade das verdades, o possível apenas e só num único lugar, ontem.
Amanhã, logo se vê, logo de vive, se for melhor que hoje, óptimo, fantástico. Maravilhoso.
terça-feira
Parece-me que estou a ficar mesmo louco.
Existem dias em que sinto que o livro que leio está realmente a falar comigo, ou a musica que ouço, sabe onde estou e quem sou.
A ler no Jardim da Estrela.
"Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se as árvores crescessem sobre recantos feudais, se os bancos não tivessem alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins. Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas, em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida que pertence a ela.
Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo." (Bernardo Soares - Livro do Desassossego)
quarta-feira
o meu sofrimento, reside apenas no facto de não conseguir partilhar o que sinto, o que penso, o que faço, o que sou.
já só quero dar, que bom que é esta sensação.
dar, de ar, respirar, inspirar, expirar.
respirar-te e expirar-me.
sexta-feira
Naquelas manhãs, ligeiramente frias de fim de inverno, ou ligeiramente mornas de inicio de primavera, quando o sol aparece, quem não se sente aconchegado? Quem não sente um aumento de um calor interior? Quem não percebe que de súbito a beleza é mais fácil de vislumbrar?
“a beleza salvará o mundo”
E é como se toda a vida tivesse começado nesse preciso momento. Acordamos de um sono revolto e molhado de suor.
É o brilho que finalmente aparece.
É a senhora que mesmo e apenas ao trazer do vão de escada para a rua o caixote verde, o faz com uma luz grandiosa.
É a realidade a deixar claro que existe, existe para ser vivida.
Existes para seres amada.
quinta-feira
Tenho um muro intransponível, em qualquer sentido, quer de cá para aí, ou daí para aqui, para o Amor.
Não deixo o amor do outro chegar a mim, e o amor que tenho em mim e que é tanto, e tanto e tanto, e tanto ou tanto, porque tanto é, e que sinto por tanta beleza que vislumbro ao meu redor e por vezes em ti.
O meu amor, esse arde, queimando todo o oxigénio que existe em mim. Nem o fogo consegue transpor este escuro, este muro, e arder livremente.
Estou já completamente carbonizado.
Sinto que se não respirar mais, mato este calor, extingo o fogo ardente que há em mim.
Respiro, logo Amo.
“Verdes são os campos da cor do limão
Assim são os olhos do meu coração”
Mas as lembranças do meu coração. Até mesmo ou sobretudo, as lembranças do que não aconteceu, não me deixam parar.
Sobrevivo devido a elas, é a memória do beijo que não me autorizei te dar, do olá que o olhar e o sorriso conquistaram mas que a pele não ouviu, são essas e outras tantas memórias que me mantêm vivo. Por elas respiro, elas são o que respiro e a minha inspiração está na vontade delas, nunca na minha.
Bomba, explosão, dinamite ou broca gigante. Salto mortal para o abismo, mergulho profundo até encontrar o trampolim celeste que existe no fundo de mim e… ao som da musica. Saltar, saltar alto, muito alto, saltar por cima do muro, romper com o escudo, voar, gritar e ouvir-me a ser ouvido e sentir-te a seres tocada. Não é o que desejo. É o que vai acontecer, porque a vida é bela e isso é com certeza, o que ela quer para mim.
Dá tempo ao tempo, isso com o tempo passa. Mas que raio, diâmetro mesmo, elipse impossível ou ridícula. Não quero que as coisas passem por mim, quero que a vida aconteça, sempre, aqui e agora. Neste tempo e neste espaço. É o primeiro artigo de lei do meu código genético.
Art.1º: Neste corpo, aqui e agora, sempre, enquanto este corpo for vivo, a vida é para acontecer e nunca para passar.
segunda-feira
quarta-feira
E à memória desse amor, em nós nunca sabido.
Éramos rapazes, tu eras mais nova e eu o maior.
Tivéssemos sabido amar e ternos-íamos amado.
Tivéssemos descoberto o caminho do amor e teríamos achado
Seus prazeres, mas, jovens então, era de irmão nosso amor.
Contudo, se te encontrasse hoje, talvez tudo fosse igual.
Tenho vergonha agora de ser o que não sabia outrora.
Talvez fosse melhor tal como foi - pois a chama virginal
Do amor não levou nossos sentidos ao fogo pleno e pior.
Lembro-te muito e a alma suspira tristemente em mim.
Recordas-me também algumas vezes e sentes algo assim?
Hoje sei que teria sido melhor termo-nos amado,
Hoje sei isso, mas não quero pensar demasiado.
Eras atraente e bela; eu não: apenas amava
Cava-se mais em mim a marca desta doença antiga
Que só os gregos, porque eram belos, tornaram bela."
Fernando Pessoa.
A quantidade certa de açúcar no fundo da xícara, a colher em acção, e ela se mistura, dissolve-se. E como eu gostava de ser essa quantidade certa de Ser e de Alma, que colocado aqui, neste momento, ao movimento do real me misturaria com o que me envolve e dissolvido viveria consciente e feliz.
terça-feira
quinta-feira
"Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos."
"O Coração, se pudesse pensar, pararia"
Bernardo Soares - Livro do Desassossego
segunda-feira
"Antichrist Television Blues" - ARCADE FIRE
I don't wanna work in a building downtown
No I don't wanna work in a building downtown
I don't know what I'm gonna do
Cause the planes keep crashing always two by two
I don't wanna work in a building downtown
No I don't wanna see when the planes hit the ground
I don't wanna work in a building downtown
I don't wanna work in a building downtown
Parking their cars in the underground
Their voices when they scream, well they make no sound
I wanna see the cities rust
And the troublemakers riding on the back of the bus
Dear God, I'm a good Christian man
In your glory, I know you understand
That you gotta work hard and you gotta get paid
My girl's 13 but she don't act her age
She can sing like a bird in a cage
O Lord, if you could see her when she's up on that stage!
You know that I'm a God-fearing man
You know that I'm a God-fearing man
But I just gotta know if it's part of your plan
To seat my daughters there by your right hand
I know that you'll do what's right, Lord
For they are the lanterns and you are the light
Now I'm overcome
By the light of day
My lips are near but my heart is far away
Tell me what to say
I'll be your mouthpiece!
Into the light of a bridge that burns
As I drive from the city with the money that I earned
Into the black of a starless sky
I'm staring into nothing
and I'm asking you why
Lord, will you make her a star
So the world can see who you really are?
Little girl, you're old enough to understand
That you'll always be a stranger in a strange, strange land
The men are gonna come when you're fast asleep
So you better just stay close and hold onto me
If my little mocking bird don't sing
Then daddy won't buy her no diamond ring
Dear God, would you send me a child?
Oh! God, would you send me a child
Cause I wanna put it up on the TV screen
So the world can see what your true word means
Lord, would you send me a sign
Cause I just gotta know if I'm wasting my time!
Now I'm overcome
By the light of day
My lips are near but my heart is far away
Now the war is won
How come nothing tastes good?
You're such a sensitive child!
Oh! You're such a sensitive child!
I know you're tired but it's alright
I just need you to sing for me tonight
You're gonna have your day in the sun
You know God loves the sensitive ones
Oh! My little bird in a cage!
Oh! My little bird in a cage!
I need you to get up for me, up on that stage
And show the men that you're old for your age
Now ain't the time for fear
But if you don't take it, it'll disappear!
Oh! My little mocking bird sing!
Oh! My little mocking bird sing!
I need you to get up on that stage for me, honey
And show the men it's not about the money
Wanna hold a mirror up to the world
So that they can see themselves inside my little girl!
Do you know where I was at your age?
Any idea where I was at your age?
I was working downtown for the minimum wage
And I'm not gonna let you just throw it all away!
I'm through being cute, I'm through being nice
O tell me, Lord, am I the Antichrist?!
sexta-feira
Ninguém, que conheça ou imagine, teria paciência para me acompanhar.
Sou um ser complicado e solitário, não gosto que escolham por mim.
E simplesmente não espero.
Por vezes penso.
Por que raio me sinto superior?
Não me sinto superior, Sou superior.
A tudo e a todos, ninguém me atinge.
Sou superior às minhas palavras, ideias.
Sou superior aos meus sentimentos.
E estas palavras não são ideia, ou pensamento, são constatação.
Constatação de um facto, durante muito tempo negado.
Eu sou maior do que o Mundo.
quinta-feira
Black Trombone - Serge Gainsbourg
Black trombone
Monotone
Le trombone
C'est joli
Tourbillonne
Gramophone
Et baîllonne
Mon ennui
Black trombone
Monotone
Autochtone
De la nuit
Dieu pardonne
La mignonne
Qui fredonne
Dans mon lit
Black trombone
Monotone
Elle se donne
à demi
Nue, frissone
Déraisonne
M'empoisonne
M'envahit
Black trombone
Monotone
C'est l'automne
De ma vie
Plus personne
Ne m'étonne
J'abandonne
C'est fini
Love Too Soon - Pascal Comelade & PJ Harvey
I have loved
In my life
As a child
I often cried
And love too soon
Can fade away
Love too soon
Can fail away
In the sun
Light of day
I can see
Your face change
And love too soon
Faze away
Love too soon
Can fail away
And this dreadful crime to see
Breaks my heart
Into pieces
Love too soon
Can fade away
Love too soon
Can fail away
How false the heart
How false the day
When you swore your love
The branches now decay
Love too soon
I'm faze away
Love too soon
I'm faze away
Passei uma tarde na garagem, mexi em tudo.
Já fui ao sótão três vezes, abri e fechei tudo o que tinha interior.
Nenhuma das três arrecadações cá de casa ficou imune à minha observação meticulosa.
Toda e qualquer gaveta ficou com o fundo virado para o cimo.
Mas não há maneira de encontrar o meu Faz de Conta.
Mas Faz de Conta que encontrei.
quarta-feira
Não quer dizer nada.
Desconfia não ser ouvido.
Os surdos ouvem por gestos.
Está cansado, quer parar.
Não existe ao seu redor.
Ninguém o vê, mesmo que na sua direcção olhe.
É libertador, as crianças brincam e gritam à minha esquerda.
Ele pode berrar, à vontade, basta não abrir a boca.
Mesmo que a escancarasse, o berro que se ouviria aqui, nunca seria o grito que carrega.
Está incapaz de se relacionar com a realidade.
Tudo é simplesmente muito impessoal, estranho e ao mesmo tempo, claro, obvio e certo.
Quem está mal?
Muda-se!
E isso tem sido o verdadeiro desafio, a mais completa dificuldade.
Mudar.
Os defeitos continuam os mesmos.
As qualidades, tem conseguido muda-las, para pior.
Continua a gaguejar ao telefone.
Mas agora já não fala ao telefone e brinca com isso.
Escreve mensagens e não brinca com isso.
A sua vida agora, resume-se a isto.
Deixar escorrer tinta azul, em papel branco.
Palavras inconsequentes
Ideias esdrúxulas
Conceitos banais
Melodramas injustificáveis
Ficções vividas
Solidões tangíveis
Resignações
A sua vida agora não se resume a escrever.
A sua vida agora resume-se a esquecer.
Gosta muito de falar, mas anda calado e gosta ainda mais, ser ouvido.
Gosta de escrever, mas escreve principalmente para ser lido, e gosta muito mais de ler o que escreve, do que escrever o que lê.
Gosta de observar mas vive com a ilusão de estar sempre a ser observado e isso dá-lhe um imenso prazer.
É narciso, apesar de não gostar muito dele.
Está literalmente sozinho.
Sozinho.
E de súbito o encontro furtivo começa a surgir na sua vida, já se sentiu completamente isolado.
O passeio está húmido, molhado mesmo. Chove em Lisboa, faz três horas que começou a ameaçar mas ameaçou por pouco tempo, mal ameaçou, agiu. Quase nem esperou para ver a reacção à ameaça.
O passeio é estreito, dois seres humanos, na nossa escala. Nem grandes nem pequenos, vistos de fora. Para não se tocarem, para garantir isso, algum deles terá que pisar a estrada, cinzenta e brilhante, que reflecte o teu céu, cinzento num fundo preto.
Faltam cinco metros para chegarem ao momento da decisão, mas nenhum deles se apercebeu disso, iam ambos a caminhar num outro passeio qualquer e nesse, nem um nem outro existiam mutuamente.
Um
Dois
Três
Quatro
Deixaram para o derradeiro metro a decisão, para o último segundo, para o momento presente. Porque um momento não é feito só de tempo, é feito de espaço também. Não podemos falar de adiar, nem um nem outro estavam a adiar nada, nem um nem outro existiam fora do seu próprio passeio.
Chocaram.
Já era noite, mas foi como se tivessem acabado de acordar, o olhar de desculpa que lançaram um ou outro, nos olhos tinham um tom de alvorada. Vinham os dois adormecidos e ao chocarem formam forçados a acordar por instantes. Depois voltaram a adormecer, neste sono constante em que vivemos, mas sonharam um com o outro.
Sonharam um com o outro.
quinta-feira
You can't break that which isn't yours
I, oh, must go on standing
I'm not my own, it's not my choice"
Regina Spektor
quarta-feira
"O simples facto de existir na vida dos outros
Pesa-me
O simples facto de alguém se preocupar comigo
Angustia-me
O simples facto de alguém pensar em mim
Preocupa-me
O simples facto de condicionar a vida dos outros
Corroi-me
O simples facto de alguém me Amar
Sufoca-me... mas não me mata
Agora
O simples facto de sequer supor imaginar
Que ninguém pensa em mim
Que ninguém chora por mim
Que não existo na vida de ninguém
Que ninguém se preocupa comigo
Que ninguém me Ama
Nesse momento sim, sei que me sentirei Morto"
Luís Severo (1998)
Lisbon Revisited (1923)
"Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas só tenho técnica dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direto a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo. ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?
Queriam o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes a todos a vontade.
Assim como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?
Não me peguem pelo braço!
Não gosto que me peguem pelo braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!"
sexta-feira
“esperar é reconhecer-se incompleto”
(Rosa, Guimarães)
Esperei uma hora por um 738, que não apareceu, apanhei um 720, que não me levava ao meu destino. A conclusão de que a Carris não presta um bom serviço, bem como não presta para nada, é clara e inevitável.
Não gosto de esperar, nunca gostei. Sei bem que sou muito incompleto, não gosto é de reconhecer constantemente isso.
Mas para te encontrar!
meu Amor desconhecido,
esperaria e espero por qualquer número,
o tempo que demorar,
e quando o encontro acontecer,
vou simplesmente te Amar.
Vou deixar de esperar.
quarta-feira
sábado
Frase fabulosa, importante e a não esquecer, em qualquer altura pode ser utilizada, sempre que não sabes do que se está a falar e sentes que é importante dizeres alguma coisa. Parece Impossível resulta, encaixa.
Dialogo 1
-Parece impossível.
-Parece impossível?
-Bom, Parece mas não é!!
-Parece impossível!
-é não é?
-é claro que sim!
sexta-feira

She Wants Revenge 3
I would like to tell you, I would like to say
That I knew that this would happen
That things would go this way
But I cannot deceive you, this was never planned
I know that you're the right girl but do you think that I am the right man?
1...2...3...4,5,6,7,
Right face wrong time, she's sweet
(But I don't wanna fall in love)
Too late, so deep, better run cause
(but I don't wanna fall in love)
Can't sleep, can't eat, can't think straight
(I don't wanna)
You say it's not a problem, You say it's meant to be
But love is not an option, our love is never free
And things are not so easy, so cold and we've been burned
I know that I'll have regrets but that's the price of one more lesson learned
1..2..3...4,5,6,7,
Right face wrong time, she's sweet
(But I don't wanna fall in love)
Too late, so deep, better run cause
(but I don't wanna fall in love)
Can't sleep, can't eat, can't think straight
(I don't wanna)
Right face wrong time, she's sweet
(But I don't wanna fall in love)
Too late, so deep, better run cause
(I don't wanna fall in love)
Right face wrong time, she's sweet
(But I don't wanna fall in love)
Can't sleep, can't eat, can't think straight
(I don't wanna fall in love)
Right face wrong time, she's sweet
(But I don't wanna fall in love)
Too late, so deep, better run cause
(I don't wanna fall in love)
Right face wrong time, she's sweet
(But I don't wanna fall in love)
Can't sleep, can't eat, can't think straight
(I don't wanna, I don't wanna, I don't wanna)
Pouco é Nada
e Nada pode ser Tudo
mas Tudo é Pouco
Bom é Razoável
Óptimo é Bom
mas Bom é Razoável
e Razoável é Mau
deixo-me ficar sozinho
com o meu Nada
e o Mau que é Óptimo de mim.
quinta-feira
sábado
“Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Vem a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite”
“Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Vem a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite”
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Vem a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite” (Caetano Veloso)
O caminho parecia curto, é já ali. Pensava…
Afinal de contas, um mais um. Tinha em ideia, já ter partido à já algum tempo. Dois.
Afinal era claro, bastava olhar, nem sequer ver era necessário. Partido. Era já a forma e conteúdo de tudo o que me rodeava. Cinco.
Apesar de ter ouvido. Dá tempo ao tempo. Acção ridícula, essa de dar algo que não se tem, a alguém que é feito daquilo que damos, nem sequer tendo.
Como posso eu, dar o que não possuo a alguém que o possui e possui-me. A mim também!
Quando o Sr. Grisalho disse. Vai! Eu fui. Não sou.
Com a convicção que era, já ali. O Lugar. O meu Lugar.
Afinal não dei tempo, ao tempo. Mas o tempo levou, o tempo que tinha. A passar, raramente a marcar. A roubar o tempo que não tenho, que devo, que me devo. A mim mesmo me digo que tenho o dever de o restituir.
Mas como me roubaram o que não tinha. Roubado nunca fui.
Afinal o que importa? Poeta.
“É por ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora! Ah! Lá fora, rir de tudo. Com o sorriso admirável, de quem sabe e gosta, ter lavados, e muitos dentes brancos à mostra.”
Nascemos, Vivemos, e Morrermos. No mesmo Lugar. Aqui e Agora.
O Sr. Grisalho, Esteve, Está, e Estará. Sempre no mesmo Tempo. Agora e Aqui.
À dias numa tasca com balcão de mármore. Sabes meu rapaz, foi esse Sr. que aos dezassete me fez Homem. Deu-me Dois pares de estalos. Quatro ao todo. E disse-me: Vou fazer de Ti um Homem. O Sr. Grisalho.
O que és, o que o espelho te mostra, o que vês naquilo que o espelho te mostra, o que fazes com o que vês daquilo que o espelho te mostra, e afinal ou principalmente, a forma como te mostras ao espelho que te mostra aquilo que és. Tu.
E todo o dia o sol levanta.
Se algum dia te acontecer como ao Quixote: “(…) mais a cansava a ela o meu cansaço, do que a descansava o descanso que eu lhe queria dar (…)” Então não esqueças. Vai!
quarta-feira
terça-feira
um pouco de The Strokes, também é bom...
On The Other Side
"I'm tired of everyone I know
Of everyone I see
On the street
And on TV, yeah
On the other side
On the other side
Nobody's waiting for me
On the other side
I hate them all, I hate them all
I hate myself
For hating them
So drink some more
I'll love them all
I'll drink even more
I'll hate them even more than I did before
On the other side
On the other side
Nobody's waiting for me
On the other side
Here we go
I remember when you came
You taught me how to sing
Now, it seems so far away
You taught me how to sing
I'm tired of being so judgemental
Of everyone
I will not go to sleep
I will train my eyes to see
That my mind is this blood as a birch on a tree
On the other side
On the other side
I know what's waiting for me
On the other side
On the other side
On the other side
I know you're waiting for me
On the other side"
segunda-feira
O Tempo a marcar, que passa sempre, não espera, não adia, nunca adianta.
Não vale a pena, querer fazer do tempo outra coisa, outra coisa que não seja vivê-lo, Presente que existe, que está e é.
Esperar o Tempo ser certo, cair na espiral da ilusão.
Nada está para vir.
Tudo já passou.
Esperar ou adiar no Tempo, é sempre perder, perder Tempo.
O único que pode ser certo, o Presente.
Por vezes, quando pode ser sempre.
Algures, apesar de estar aqui.
Memórias, temos e são elas que nos formam,
Temos a forma que no Presente moldamos as nossas memórias.
A memória é uma argila, a argila de que somos feitos. Por isso o conceito, de maturidade. Por isso quantas mais memórias.
Mais matéria prima para nos criarmos, mais complicados nos tornamos, mais detalhados, mais pormenorizados, tantas vezes mais concretos, nítidos, por vezes mais verdadeiros.
Todo e qualquer Presente é passível de ser transformado em matéria e logo em argila.
Ao nos darmos por inteiro, sem reticencias...
Ao Presente.
Ao vivê-lo, com toda a essência e verdade, estamos a construir as memórias de amanhã.
Armazenar argila, que iremos utilizar, moldando-nos.
Principalmente nos momentos de dor e sofrimento.
Acabam por ser eles os instantes de maior produção.
Onde crescemos.
Quando nos recriamos e conhecemos.
Se passamos muito tempo sem nos darmos.
Quando o sofrimento aparece, ficamos quase sem matéria para crescer.
Corremos, o risco, de não mudar, não crescer, não evoluir, não aprender, não reconhecer.
Corremos, o risco, de ficar, ficar, ficar, na mesma, ficar, no Passado.
Temos algo, ..., até muito em comum!
Eu escrevo, pela mesma razão que Tu lês.
-Porque não gostamos da solidão.
sexta-feira
Reencontra ao entrar no comboio, o mesmo que no café lhe diz.
Vai, lhe diz para ir, ir Viver, ir bem.
O mesmo que lhe dá gana, essa mesma gana que pouco durou.
Esse mesmo senhor, grisalho. O Passado, o Futuro.
À tua frente, atrás de ti, sempre Presente, o reflexo.
Esse mesmo senhor grisalho, a Força, o Tesão, a Consciência.
Esta consciência, esta memória, este tesão.
O Sonho, grisalho, de antigo, velho sonho.
O Sonho do encontro, de encontrar, de A encontrar.
A felicidade.
O Sonho do encontro, de encontrar, de O encontrar
O amor.
These Things
There is nothing to see here people keep moving on
Slowly their necks turn and then they're gone
No one cares when the show is done
Standing in line and its cold and you want to go
Remember a joke so you turn around
There is no one to listen so you laugh by yourself
Chorus:
I heard it's cold out, but her popsicle melts
She's in the bathroom, she pleasures herself
Says I'm a bad man, she's locking me out
It's cause of these things, it's cause of these things
Let make a fast plan, watch it burn to the ground
I try to whisper, so no one figures it out
I'm not a bad man, I'm just overwhelmed
It's cause of these things, it's cause of these things
The crowd on the street walks slowly, don't mind the rain
Lovers hold hands to numb the pain,
Gripping tightly to something that they will never own
And those by themselves by choice or by some reward
No mistakes only now you're bored
This is the time of your life but you just can't tell
Chorus (2.5X)

O livro chama-se Adeus, Tsugumi e acaba com a frase:
-Fica Bem.
Quantas vezes já ouvi esta frase, síntese genial.
Odeio a frase.
A mim, diz-me uma quantidade enorme de sentimentos que não gosto de ter, nem que nutram por mim.
É claramente uma despedida, envolta em alguma pena, preocupação e certeza da incapacidade de conseguirmos, ou podermos, ou mesmo querermos fazer algo para que o outro esteja, seja, exista e vá bem.
Se ir ou ficar fosse uma real opção, provavelmente mesmo assim, optaríamos sempre por ir.
A esperança é a ultima que morre e quem sabe a curiosidade seja a penúltima, ultima a abandonar a esperança, aí sim, quando sozinha, a esperança fica e morre.
Antes da esperança partir, ninguém fica, tudo está sempre em movimento, o constante devir.
Todas as pessoas que me disseram fica bem, mesmo que usem as palavras sem as sentir ou pensar, estavam a me dizer Adeus, nada quero ou consigo ou posso fazer para existir e crescer junto de ti. A esperança já morreu.
E eu não gosto de despedidas, nem da solidão, nem da morte e por ultimo ou finalmente Eu sou, não fico.
quarta-feira
“Durante 10anos, estivera protegida por algo como um grande véu, que tinha sido tecido numa única peça a partir de uma variedade de coisas distintas. Quem não tenta sair dele não se apercebe em absoluto do seu calor. Um véu a uma boa temperatura, justamente – ao ponto de nem sequer se perceber que se está dentro dele, enquanto não se está na situação de não poder voltar para trás. E esse véu era o mar, a cidade no seu conjunto, a família Yamamoto, a minha mãe, o meu pai que vive longe. Tudo isso me envolvia na altura com suavidade. Eu estou divertida e feliz em qualquer altura, mas por vezes fico nostálgica com memórias daquela época, ao ponto de estar triste e de me ser insuportável. Em alturas dessas, as imagens que mais tenho revivido têm sempre sido as de Tsugumi brincando com o cão na praia e de Yôko empurrando risonhamente a bicicleta e andando pelo caminho à noite”
(in Adeus, Tsugumi de Banana Yoshimoto – pág.32/33)
O Passado é esse senhor aí, atrás de ti!
Esse aí, à tua frente!
É sempre esse senhor, Grisalho, que se quer fazer Presente.
Por vezes presenteia-nos com sentimentos belos e bons, memórias quentes aconchegantes, abraça-nos.
Noutras alturas trás consigo uma cavalaria, uma infantaria, mutila-nos.
É guerra que quer, e muitas vezes parte de volta ao seu lugar deixando-nos moribundos.
segunda-feira
Um dia destes, fui buscar as minhas sobrinhas à escola.
Já no carro, em direcção a casa, uma e a outra começaram numa discussão sobre o precisar. Dizia a mais nova:
-Dá-me essa garrafa que eu preciso dela.
E insistia na questão do precisar.
Eu, que nunca gostei muito de discussões e ainda menos quando as mesmas trazem consigo uma subida drástica dos decibéis emitidos, decidi interferir de forma a dar por acabada a conversa. Normalmente, com elas, quando quero acabar com a conversa, opto por mensagens paradigmáticas ou paradoxais, elas ficam caladas por uns tempos a pensar na asneira que o tio doido disse, e quando desistem de pensar no assunto já não se lembram da discussão estúpida que estavam a ter.
E assim foi, para tentar dar por terminada a disputa sobre o precisar, disse para a mais nova:
-Sabes, tu só precisas de ar para respirar, água para beber, pão para comer, um lugar para te abrigares e vontade de fazer xixi e cocó. Mais nada. Por isso não estejas para aí a dizer que precisas de uma garrafa de plástico vazia.
Ela não ficou calada nem dois segundos, rematou:
-Estás enganado!!
-Estou enganado? Então porquê?
-Também precisas de Amigos.
E então fui eu que fiquei calado uns segundos, para lhe responder, depois de parar o carro e olhar para ela no banco de trás, olhos nos olhos.
-Sabes linda, tens toda a razão!
E é assim, estamos sempre todos a aprender com todos.
quinta-feira
Sick and tired of all the after
Sick of trying to find a way to slide
Even though it always ends in laughter
Its never hard to tell when things are done
She looked into my eyes and a voice said RUN
She says that i'm a mess but it's alright
Whether its 2 weeks, 2 years or just tonight
You can occupy my every sigh,
you can rent a space inside my mind
At least untill the price becomes too HIGH
I can find a reason that we should quit
I can find a reason to do it
I can find excuses for all my shit
She tells me just to work right through it
She's pretty and I like her but shes too well
Cuz I need red flags and long nights and she can tell
It's not that it's my fault it's just my style
Beginning with a look and then a smile
You can occupy my every sigh,
you can rent a space inside my mind
At least untill the price becomes too HIGH
She don't need a thing, she don't need saving or a lay
She's got all the friends around and you can hear them say:
He's not into you he's into the idea of
But little do they know that she's not through
You can occupy my every sigh,
you can rent a space inside my mind
At least untill the price becomes too HIGH"
mais uma paixão
Para a rádio Radar, melhor dizendo, para alguns ouvintes da rádio Radar, o album dos The Strokes, First Impressions of Earth, foi o melhor album do ano de 2006. É bom, não tenho problemas em dizê-lo. Mas para mim, não foi o melhor que conheci e que me tocou mais no ano que passou.
Conheci muita musica em 2006, ouvi mesmo muita musica no ano passado. Sempre tive e continuo a ter uma relação muito especial com a musica, é o meu pequeno almoço, estou quase sempre a ouvir musica. A trabalhar, a tomar banho, a cozinhar, no carro, nos transportes. Para mim quase todas as ocasiões são boas para ouvir musica.
Da muita musica que conheci e que foi lançada em 2006, existe uma banda que adorei.

quarta-feira
"Ainda que a minha história fosse breve, muitas eram as recordações que, ao longo do caminho, vinham ao meu encontro. Mesmo que nunca mais voltasse a encontrar o meu Pai, ali, pelo menos, ele estava vivo. Uma descoberta que me enchia de alegria" (pág.63)Ontem acabei de ler o Arco-Íris da escritora japonesa Banana Yoshimoto
Terminei ontem o livro num café do Largo Camões em Lisboa, depois de terminar, parei um pouco para pensar, vislumbrei o passado, sem dor, sonhei com o futuro sem presa ou espectativas e escrevi na ultima página do livro:
Não vale a pena a procura, muito menos valerá a pena o esforço.
Encontrar algo mais belo e verdadeiro que o Amor entre dois seres humanos, é simplesmente estupido.
O Encontro que surge
O vislumbre de beleza
O aconchego que vem pé ante pé
O cheiro a calor, do corpo, esse maravilhoso contentor do ser amado
Definitivamente o Amor é mais uma, outra, dimensão
Existe a largura, a profundidade e a altura do espaço
Existe o passado, o presente e o futuro do tempo
E depois Existe o Amor.
O lugar mais belo onde e quando se pode Viver.









